terça-feira, 7 de junho de 2011
E eu afasto as cortinas da minha sacada pra ver a tempestade passar. Coloco uma coisa qualquer a tocar, um copo de wisky, um cigarro aceso e, naquele momento, nao precisaria de mais nada. Mas preciso. Ainda me faltam memórias de uma mulher de rosto comum e gostos convenientes. Me falta um cheiro de perfume impregnado no lençol estendido a se encharcar na chuva de agora.
segunda-feira, 20 de setembro de 2010
Contar gotas para dormir, gotas de uma esperada chuva de tempo seco.
E como que se faz mesmo, aquele doce que minha mae fazia, e deixava a casa inteira suspensa em pensamentos, permeada pelo cheirinho de coisa-que-marca-infancia.
Lembro-me de que no fim, todo mundo quer sobreviver. Estamos todos ombros a ombros quando se revela uma gravidade dessas. Ninguem, nem um passo a frente, nada nos diferenciara.
Dizem que guerreiro nao teme batalha, mas teme sim. E aquele velho cliche, eu me lembro, de que coragem nao eh ausencia de medo, mas tomar decisoes apesar do medo.
Sinto medo. Mas nao estou paralisado.
Poderia dizer que estou pronto para outra, mas isso seria dar chance ao azar.
sexta-feira, 17 de setembro de 2010
Como fazia para parar de se sentir assim? Como fazia mesmo?
E do conforto que sentar-se bem proximo do joelho
E prestar atenção na respiração, surpreso, no mistério disso tudo.
Quem perde, e o que perde, sabe como é.
O grande problema do processo é se livrar dos planos.
Cruel é ter que convocar um a um numa sala branca
na qual nunca se entra, e habita apenas o desconforto
Chama-los e anunciar sua morte iminiente e irrevogável.
Da cinta da calça se tira um revolver então.
O tabor gira, a agulha se movimenta e diretamente no centro dos olhos daquele que antes lhe seria um querido companheiro para madrugadas desobedientes..
Mata o sonho, chama o próximo, ritual que deve acontecer.
Dói em mim também.
E talvez reduzir-se a porcentagens, a termos de sobrevida e reposicionamento e cura.
Não.
Espanto não se deveria ter, haja visto que assim é, assim sempre foi e não há o que não será.
Mas,
Mantenha-se em linha.
Não se deixe perturbar.
Saiba que apesar do que sente, está com muita gente por perto.
Por um momento
Como daqueles que perdemos a força sobre o olhar
Enquanto esperamos nosso nome ser anunciado no consultório
E pegamos nós mesmo encarando e chão, como se houvesse ali algum mistério a ser resolvido imediatamente.
Por um momento parece que tanto faz.
E deixa que assim seja pelo motivos que também tanto faz.
segunda-feira, 3 de maio de 2010
Isto não é filosofia.
É que incomodava de teus traços serem assim tão autônomos.
Indepêndencia do tipo que violenta os desavisados,
E de tanto ser violentado repara choro metarmorseando em gozo
E disfarça vergonha franzindo a testa, esboçando o choro perdido de novo.
-----
Trouxe aqui na algibeira a tinta vermelha,
daquela mesma que ela passava no beiço
e da mesma que encontrava na rede nos dias de sol quente.
É com essa tinta que pintei a cerca daqui da frente
Na intenção de fazer tudo em volta sentir a sua ausência.
----
A merda dos homens que pensam é essa coisa de intenção.
A merda dos homens que pensam é infinitude que separa a bala da agulha.
Não se pode desrespeitar a natureza e andar impune rumo à academia de soberba.
Árvore não faz filosofia. Leão não se indaga. Nem tatu-bola tergiverseia sobre a vida.
No entanto, muito homem apenas pensa, e engole a realidade cuspida e passada e negada por todos os outros homens que, tão naturalmente, não pensaram.
A vida ensina o simples, pense, mas depois que fizer. Use a ferramenta do raciocínio para melhor dormir a noite, justificando o dia que fizeste de forma autônoma e verdadeira.
É deste homem menos enfeitado, deste homem nu e verdadeiro para com a natureza, digno de violência e de amores exagerados, que se faz o progresso, e verdade seja dita, os mais memoráveis erros.
Mas não confuda isto com filosofias baratas. Isto não é filosofia.
domingo, 28 de fevereiro de 2010
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
e ela disse assim, que se eu fosse com ela e subisse as escadas e tocasse a campanhia,
e que se eu tivesse e pudesse levar algumas gotas de alcool de qualquer qualidade
ela disse que se eu fizesse do jeito que ela mandava, ela deixaria eu falar com Jesus.
Cabra, se tem algo que me mexe é essas coisas de religião, e nem acreditar eu acredito,
é que tem tanta gente de cabeça boa que fala que de repente é tudo verdade
e eu num tenho a menor capacidade de dizer se verdade ou mentira e se direito ou certo
e na realidade nem vontade eu tenho já que religião nunca colocou mistura na minha gelada.
Aí eu fico meio confuso mas as vezes é só fome e passa logo depois da janta.
Ela era bem das donzelas, toda cheia das graça e dos gingado e as vezes bem de longe parecia até um anjo desses de filme que a gente ve em propaganda de perfume ou viagem pra longe
e eu bem que gostaria de ter com ela e até de ter ela assim da forma animal mesmo, porque eu num conheço muito as gentilezas.
Mas de outra forma, eu num queria falar com Jesus.
foi nisso que me confusei de novo e mandei ela tomar merda com vinagre
entre no onibus só para poder fingir que era do tipo que fazia alguma coisa durante as tardes
e no último ponto desci na favela que me criei.
terça-feira, 24 de novembro de 2009
sexta-feira, 9 de outubro de 2009
não sei de onde ou para que
transformo
que antes era de tensão, quase que infiel
é incompleto e soberano
digno apenas de sí.
franzida a testa
de di a lo gos assim
mas é claro, oras
que é merda pura concentrada
não sei pra que isso
talvez essa magia é devida
não me lembro, diretamente
mas tenho certeza de que era quase azul
ou talvez rosa.
quanto me custa para ter a mão lida?
e para a te-la reescrita?
segunda-feira, 21 de setembro de 2009
segunda-feira, 21 de abril de 2008
Negocinho de fumar
Pianos de calda
e acidez profunda
Pó de pureza angelical
Samba sem harmonia
Animais deflagrados por Freud
Trens que chegam por chegar
Toma aqui o pileque
E esse negocinho de fumar
e acidez profunda
Pó de pureza angelical
Samba sem harmonia
Animais deflagrados por Freud
Trens que chegam por chegar
Toma aqui o pileque
E esse negocinho de fumar
quarta-feira, 16 de abril de 2008
Eu sou.
Bordões de violão velho.
Cigarros e pileques antes do meio-sol.
Questão de ser temido, gostado, testado, usado.
Cuícas de abandono sóbrio.
Humores de fazer tremer chão.
Eu sou uma metade de muito pouco, eu sou um vermelho de Godard, um personagem de Capote, um corpo que atravessa ruas e morre com tragos de fome.
Cigarros e pileques antes do meio-sol.
Questão de ser temido, gostado, testado, usado.
Cuícas de abandono sóbrio.
Humores de fazer tremer chão.
Eu sou uma metade de muito pouco, eu sou um vermelho de Godard, um personagem de Capote, um corpo que atravessa ruas e morre com tragos de fome.
domingo, 30 de março de 2008
sexta-feira, 28 de março de 2008
Malas
Eu vou até a lua
Bala na agulha
e
versos
fast-food
Cigarro na boca
Mala
e
cuia
Quero ver
minha mãe
Eu vou
até a puta
Chorar
alagados
Chegar
à boca
Da favela
mais alta
Vou
a livraria
Comprar versos
e estricnina
É culpa sua
e
de quem
quer que seja
Eu vou até a lua
mas
ainda
é de
dia.
Bala na agulha
e
versos
fast-food
Cigarro na boca
Mala
e
cuia
Quero ver
minha mãe
Eu vou
até a puta
Chorar
alagados
Chegar
à boca
Da favela
mais alta
Vou
a livraria
Comprar versos
e estricnina
É culpa sua
e
de quem
quer que seja
Eu vou até a lua
mas
ainda
é de
dia.
domingo, 23 de março de 2008
Transgressão dos meus 19
Transgressão dos meus 19;
No caminho de pó da lua
O septo baixo, o trago ao chão
Calcanhares alados e carrancudos
Tenho duas mãos e um canudo.
Brevidade encantada
E as tais escolhas
O corpo exige
Os sentidos saqueiam
São acordes órfãos
Meus escravos se rebelaram
E os cavalos estão mortos
Auto-canibalizo o que resta de meu pai
Canabis e absintos para o pó do pó;
Quero estar morto pelo nascer do dia,
Preservada a integridade do sexo,
Se necessário dois cigarros.
De Eclesiastes e Juízes e
Trouxe meu currículo
E a carne criada na impureza da Família
Mas isso não importa.
-----
"Crismei no sexo das prostituas viciadas."
No caminho de pó da lua
O septo baixo, o trago ao chão
Calcanhares alados e carrancudos
Tenho duas mãos e um canudo.
Brevidade encantada
E as tais escolhas
O corpo exige
Os sentidos saqueiam
São acordes órfãos
Meus escravos se rebelaram
E os cavalos estão mortos
Auto-canibalizo o que resta de meu pai
Canabis e absintos para o pó do pó;
Quero estar morto pelo nascer do dia,
Preservada a integridade do sexo,
Se necessário dois cigarros.
De Eclesiastes e Juízes e
Trouxe meu currículo
E a carne criada na impureza da Família
Mas isso não importa.
-----
"Crismei no sexo das prostituas viciadas."
sábado, 8 de março de 2008
Sexta branca e malte.
A caneta sem carga é para ingerir melhor o mundo branco e malhado. É tudo assim, desde tempos que vá lá se saber. Pisando no compasso daquela música que já lhe fritava o âmago; A martelada que sente no peito vinha da pisada trançada e desconfiada, como que se estivesse mesmo bem maior.
É tudo bem mais rápido, as tantas imagens vão se fazendo e desfazendo e entrando em contato com o corpo inteiro, enquanto a música cresce e passa que tudo é passado, o presente é velocidade disparada que nem futuro alcança.
Lindo sorriso, cabelos tapam o rosto, a bebida tem cheiro assim. Na porta da bodega se deixa o que antes era, pra que naquela merda toda ninguém seja ninguém. Aqui, negão, é pra botar demônio pra fora no pulo, correndo que nem jagunço que comeu mulher errada. Aqui é pra não ver mesmo, que os olhos têm mania de grandeza, e querem sempre serem único sentimento. É pra isso esse pisca-pisca, sente como agora cada pedaço de sua pele ta querendo contato, como a música violenta o peito. Dão-lhe a graça de não mais ver em filme a realidade, mas em rápidas fotos tiradas. Bebe e roda essa cabeça, bebe pra deixar de ser assim sempre tão você mesmo.
Carreiras e carreiras vão pro saco em noites assim. É que tem que ter alguma coisa pra lhe por na linha, para poder seguir, com o nariz mesmo.
A mulher se aproxima com sorriso maldoso. Não é de companhia que quero. Bonita, linda, mas que vá a merda. A coisa toda é que to num carro a dois mil quilometros por hora dentro de mim mesmo. To alcoolizado, completamente, estou drogado e com milhares de sentimentos suando pela pele, dirigindo por todas aquelas trancas cheias de buracos e bueiros e gente que quer é atrapalhar. Quero é poste, quero que se exploda que não há verbo mais pra mim, visto que não sou primeira, quem dirá pessoa. A caneta, de novo, que esse mundo empelota fácil, e depois num entra.
A terra puxa menos, o peso voa, as memórias se afogam. Milhares e milhares de flores nascem, vermelho-sangue como o mar.
Da janela se vê, senhor que lhe bota medo, sucesso em pessoa, mas está muito rápido, fica pra trás. Passa namorada, passam amigos e amigas, passa prova errada, passa a vida, passa fluindo como jugular cortada. Assim que vida vai, esvai, sangrada.
Não, felicidade nada. Na verdade, não há nada, o que vem passa, igual na vida, mas em velocidade exagerada. Tem tanto sentimento, e você sempre pensando nesses mesmos. Sinta, não bote nome que isso é coisa grosseira.
Com o copo, rodeado por pessoas que não lhe notam. Com o corpo pulsando frenético, o coração fazendo-se presente nas extremidades ignoradas. Os sons metálicos. As risadas fogosas e vaporizadas. Suor, éter da novidade.
A noite termina com a violência dos traços do sol. Aquele maldito astro, incumbido de levantar dos mares a realidade brutal do cotidiano enfartado.
Na ponta do cigarro matei meu dia, e acho que foi pra sempre.
É tudo bem mais rápido, as tantas imagens vão se fazendo e desfazendo e entrando em contato com o corpo inteiro, enquanto a música cresce e passa que tudo é passado, o presente é velocidade disparada que nem futuro alcança.
Lindo sorriso, cabelos tapam o rosto, a bebida tem cheiro assim. Na porta da bodega se deixa o que antes era, pra que naquela merda toda ninguém seja ninguém. Aqui, negão, é pra botar demônio pra fora no pulo, correndo que nem jagunço que comeu mulher errada. Aqui é pra não ver mesmo, que os olhos têm mania de grandeza, e querem sempre serem único sentimento. É pra isso esse pisca-pisca, sente como agora cada pedaço de sua pele ta querendo contato, como a música violenta o peito. Dão-lhe a graça de não mais ver em filme a realidade, mas em rápidas fotos tiradas. Bebe e roda essa cabeça, bebe pra deixar de ser assim sempre tão você mesmo.
Carreiras e carreiras vão pro saco em noites assim. É que tem que ter alguma coisa pra lhe por na linha, para poder seguir, com o nariz mesmo.
A mulher se aproxima com sorriso maldoso. Não é de companhia que quero. Bonita, linda, mas que vá a merda. A coisa toda é que to num carro a dois mil quilometros por hora dentro de mim mesmo. To alcoolizado, completamente, estou drogado e com milhares de sentimentos suando pela pele, dirigindo por todas aquelas trancas cheias de buracos e bueiros e gente que quer é atrapalhar. Quero é poste, quero que se exploda que não há verbo mais pra mim, visto que não sou primeira, quem dirá pessoa. A caneta, de novo, que esse mundo empelota fácil, e depois num entra.
A terra puxa menos, o peso voa, as memórias se afogam. Milhares e milhares de flores nascem, vermelho-sangue como o mar.
Da janela se vê, senhor que lhe bota medo, sucesso em pessoa, mas está muito rápido, fica pra trás. Passa namorada, passam amigos e amigas, passa prova errada, passa a vida, passa fluindo como jugular cortada. Assim que vida vai, esvai, sangrada.
Não, felicidade nada. Na verdade, não há nada, o que vem passa, igual na vida, mas em velocidade exagerada. Tem tanto sentimento, e você sempre pensando nesses mesmos. Sinta, não bote nome que isso é coisa grosseira.
Com o copo, rodeado por pessoas que não lhe notam. Com o corpo pulsando frenético, o coração fazendo-se presente nas extremidades ignoradas. Os sons metálicos. As risadas fogosas e vaporizadas. Suor, éter da novidade.
A noite termina com a violência dos traços do sol. Aquele maldito astro, incumbido de levantar dos mares a realidade brutal do cotidiano enfartado.
Na ponta do cigarro matei meu dia, e acho que foi pra sempre.
Aforismos herméticos do cotidiano barato.
Todo o esforço é revoltante.
Neste daqui, vem vinte cigarros.
"Super prático", na embalagem de papel higiênico. Sentar, evacuar e limpar, mais fácil agora com Super Neve.
Duas dúzias de vermelho na barraca perto da Sé. Seis reais o quilo.
Neste daqui, vem cinco gramas, mas é da boa.
Aquele cara ali, tava rindo de você.
Sai fumaça de tudo que a gente da valor; Dos carros, das fábricas cujos produtos são para o bem-estar, da comidinha quentinha. Sai fumaça das minhas ventas, e nada.
Ta dormindo ô cidadão? Aqui num é lugar de dormir não! Rapá fora dessa praça vagabundo. Vai empilhar papelão vai.
O impostômetro ali pra lembrar da merda toda. Merda que não fede, é a mais perigosa, é coisa de câncer.
E por falar em gostosa, olha só aquele pernilzinho! Fala se num é coisa da esquerda, do tinhoso?
E a democracia isso, e a democracia aquilo, e também os direitos do homem e do cidadão, e essa coisa toda, a gente tem é que defender - O zé, é pra pagar como esses quilos todo de picanha que o cê pediu? - Ah meu querido, põe na conta do gabinete que isso aqui é discussão de ideologia.
Não ter graça é a prova do bom gosto de certas piadas. A vida não tem graça.
Neste daqui, vem vinte cigarros.
"Super prático", na embalagem de papel higiênico. Sentar, evacuar e limpar, mais fácil agora com Super Neve.
Duas dúzias de vermelho na barraca perto da Sé. Seis reais o quilo.
Neste daqui, vem cinco gramas, mas é da boa.
Aquele cara ali, tava rindo de você.
Sai fumaça de tudo que a gente da valor; Dos carros, das fábricas cujos produtos são para o bem-estar, da comidinha quentinha. Sai fumaça das minhas ventas, e nada.
Ta dormindo ô cidadão? Aqui num é lugar de dormir não! Rapá fora dessa praça vagabundo. Vai empilhar papelão vai.
O impostômetro ali pra lembrar da merda toda. Merda que não fede, é a mais perigosa, é coisa de câncer.
E por falar em gostosa, olha só aquele pernilzinho! Fala se num é coisa da esquerda, do tinhoso?
E a democracia isso, e a democracia aquilo, e também os direitos do homem e do cidadão, e essa coisa toda, a gente tem é que defender - O zé, é pra pagar como esses quilos todo de picanha que o cê pediu? - Ah meu querido, põe na conta do gabinete que isso aqui é discussão de ideologia.
Não ter graça é a prova do bom gosto de certas piadas. A vida não tem graça.
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008
Imagem de fim de tarde
E se todos os dias teriam que bater seis horas pra terminar com a tarde, na mesa fria de natureza morta, os olhos dele entretidos com o cigarro e o cinzeiro, os olhos dela timidamente querendo encontrar o fim da mesa (isso se podemos chamar de tímida a velocidade de um raio sem trovão), e o fim de um tudo que se fez de mais que sonhos e planos, um tudo quase tão maior do que se pode imaginar que o som de sua eclosão é de um silêncio insuportável aos ouvidos dos homens que por aqui vivem, e que por aqui ouvi falar que já viveram. E se todos os dias teriam que seguir como que procissão de um funeral repetido, cansado de tanto existir e que mesmo assim exige de testemunhas aquelas duas pessoas desconectadas pela ferrugem do tempo, os finais das tardes que estão por vir seriam exatamente como este que se passa, agora mesmo, na casa onde a janela aberta apenas opõe a luz de um sol pela hora da morte com uma madona bordando flores em uma mortalha cinza, enquadrada por madeiras da mesma cor da mesa do café, e separados, sol e madona, por caprichos do destino e por um vidro muito bem limpo.
O homem típico que se forja nas caldeiras de tempos como estes; O dinheiro, ou a perseguição daquilo que ele disfarça, o motivo de seu corpo não encontrar mais descanso em travesseiro algum, o motivo de sua constante abstinência vital em prol de um futuro que nem Deus mais sabe onde é que começa. O típico homem que por tanto tempo andou olhando apenas para frente e para o alto, sem muito se importar com os tropeços, pois se sentia em via sacra infalível, de onde almas e corpos, ao luxo, seriam prêmios por tão aguçada visão, mas que hoje ao final da tarde descansa as pupilas olhando suas mãos brincarem com o cigarro e o cinzeiro, que estão muito mais perto, e são muito mais reais.
E que sonhos costumam, assim como doença séria, contaminar. E que se fumam aqui, ali os narizes são capazes de também sentir a fumaça, assim também é que se preenche a cama, com dois corpos e um sonho (fumaça) que ganha pai (aqui) e mãe (ali), mesmo que nascendo de um só. Assim que ela, a Mulher, viciou-se também, para que falassem a mesma língua sobre os mesmos temas quando a hora do café chegasse, trazendo o Homem do serviço, o Homem o qual ela escolhera a tantos anos, antes da primeira ruga, e que costumava olhar sempre para frente e para o alto, postura de águia do deserto, convencido como um ateu. E por invernos e invernos alçavam vôos em direção a qualquer lugar, contando que fosse uma conquista grande, de fazer lacrimejar os olhos e palpitar o coração. Vencer é que era importante, seja lá onde ou pra que, seja lá o que vencer poderia significar. E que pondo maritalmente a mão esquerda sobre o ombro esquerdo do seu marido, ela mal queria saber dos rumos, das idéias ou dos meios, importando o fim; A felicidade conjugal, mesmo que mentira.
Milhares de vezes cruzou o céu daquela janela o sol, batendo de frente com o rosto impiedoso da madona seriamente compenetrada em seus afazeres, e pacientemente desbotando um pouco daquela tela, como fez com a vida do Homem e da Mulher. Cometendo um erro ingênuo poderíamos culpar a escassez de vitórias, ou a falta de sonhos mais fáceis, ou o inevitável que quer sempre fazer-se presente. Mas a verdade em forma de fome e dificuldade tem nos mostrado o valor do materialismo e bem vemos quem tem feito mal à matéria, o sol, e que assim tem matado com o tédio da repetição aquilo que também é matéria, embora em estado que ainda nossos físicos não puderam descrever.
Pudesse ele largar o cigarro e o cinzeiro, erguer os olhos aos olhos dela e dizer que aquilo tudo não era o que ele tinha imaginado, que erros infantis haviam sido cometidos e que as coisas andavam mal. Ela, pondo de lado o pão que molhava no café bem preto, diria que o mal com o bem se completa, que se erraram era acertando que fariam diferente, e já que amanhã, de novo e novamente, o sol desceria por aquela janela, poderiam eles apresentar uma outra peça para aquele que embora astro conserva-se espectador dos humildes, e que embora severo sua ausência ainda pode ser depressiva e aterrorizadora.
Mas é no cigarro e no cinzeiro mais uma vez que se encontra o que há de mais parecido com a paz. E que sem trocarem palavras ou olhares ou sorrisos que poderiam então continuar a se convencerem sós, parte de um plano miraculoso onde tudo foi e é ilusão, que nem a mesa nem o que está do outro lado dela poderiam existir, tudo é fruto do que se imagina ser.
E se todos os dias teriam que bater seis horas pra terminar com a tarde porque alguém um dia pensou que isso poderia inspirar um novo começo aos que precisam, ou simplesmente porque assim haveria de ser, e não de qualquer outra forma, todos os dias o sol teria ali a sua bicada de podridão arreganhada e a luz que atravessa aquele quadrado de madeira morna e escura e rachada encontraria nada mais do que silêncio e corpos vazios, olhos que mais nada querem olhar e a triste cena de Homem e Mulher morrendo em passado com apenas uma madona quase sem cor a cozer-lhes suas mortalhas, enquanto andam pela mesa apenas cigarro rumo a cinzeiro, e pão rumo ao café.
Já arrastava, o sol, o Homem para dentro de casa, como assim era feito e então, como se costuma dizer, assim é que deveria ser. Aquele ruído que as portas fazem ao serem incomodadas, se fosse um outro dia qualquer, seria o único daquele fim de tarde e começo de noite, porque palavras já sabemos que ninguém mais usava, desnecessário seria dizer então que os sons do amor também a tempos não vibravam os ares ou os móveis daquela casa.
A janela fechada provocou a primeira manifestação que poderíamos chamar ser a prova de humanidade do Homem, uma frase inteiramente interjetiva e então, digamos, dotada de ao menos um pouco de sentimentalidade: “Mas que merda...” Ao que parecia a mulher o havia deixado, e dentro da caixa de cigarro, que muito espertamente ela sabia ser onde ele iria procurar sua paz silenciosa, um bilhete assim dizia: “Sua fumaça me incomoda”. Ao leitor cabe compreender o que fumaça significa.
Acontece que todos os dias, mesmo a partir dali, iriam sim bater as suas seis horas da tarde, e que isso muito provavelmente não quer dizer nada, mas aquela casa que a essa hora costumava ter a luz agradável do sol se pondo agora tinha as janelas fechadas, e isso podia ser ruim para o Homem e para a Mulher, mas era sim bom para a madona, de quem só sobravam as linhas, feitas de uma matéria mais resistente ao sol. E era bom também à luz do sol, que agora passava o dia inteiro sem ter que tocar a tal da podridão, poupada pela persiana grossa que vestia o vidro que já fora muito bem limpo.
O homem típico que se forja nas caldeiras de tempos como estes; O dinheiro, ou a perseguição daquilo que ele disfarça, o motivo de seu corpo não encontrar mais descanso em travesseiro algum, o motivo de sua constante abstinência vital em prol de um futuro que nem Deus mais sabe onde é que começa. O típico homem que por tanto tempo andou olhando apenas para frente e para o alto, sem muito se importar com os tropeços, pois se sentia em via sacra infalível, de onde almas e corpos, ao luxo, seriam prêmios por tão aguçada visão, mas que hoje ao final da tarde descansa as pupilas olhando suas mãos brincarem com o cigarro e o cinzeiro, que estão muito mais perto, e são muito mais reais.
E que sonhos costumam, assim como doença séria, contaminar. E que se fumam aqui, ali os narizes são capazes de também sentir a fumaça, assim também é que se preenche a cama, com dois corpos e um sonho (fumaça) que ganha pai (aqui) e mãe (ali), mesmo que nascendo de um só. Assim que ela, a Mulher, viciou-se também, para que falassem a mesma língua sobre os mesmos temas quando a hora do café chegasse, trazendo o Homem do serviço, o Homem o qual ela escolhera a tantos anos, antes da primeira ruga, e que costumava olhar sempre para frente e para o alto, postura de águia do deserto, convencido como um ateu. E por invernos e invernos alçavam vôos em direção a qualquer lugar, contando que fosse uma conquista grande, de fazer lacrimejar os olhos e palpitar o coração. Vencer é que era importante, seja lá onde ou pra que, seja lá o que vencer poderia significar. E que pondo maritalmente a mão esquerda sobre o ombro esquerdo do seu marido, ela mal queria saber dos rumos, das idéias ou dos meios, importando o fim; A felicidade conjugal, mesmo que mentira.
Milhares de vezes cruzou o céu daquela janela o sol, batendo de frente com o rosto impiedoso da madona seriamente compenetrada em seus afazeres, e pacientemente desbotando um pouco daquela tela, como fez com a vida do Homem e da Mulher. Cometendo um erro ingênuo poderíamos culpar a escassez de vitórias, ou a falta de sonhos mais fáceis, ou o inevitável que quer sempre fazer-se presente. Mas a verdade em forma de fome e dificuldade tem nos mostrado o valor do materialismo e bem vemos quem tem feito mal à matéria, o sol, e que assim tem matado com o tédio da repetição aquilo que também é matéria, embora em estado que ainda nossos físicos não puderam descrever.
Pudesse ele largar o cigarro e o cinzeiro, erguer os olhos aos olhos dela e dizer que aquilo tudo não era o que ele tinha imaginado, que erros infantis haviam sido cometidos e que as coisas andavam mal. Ela, pondo de lado o pão que molhava no café bem preto, diria que o mal com o bem se completa, que se erraram era acertando que fariam diferente, e já que amanhã, de novo e novamente, o sol desceria por aquela janela, poderiam eles apresentar uma outra peça para aquele que embora astro conserva-se espectador dos humildes, e que embora severo sua ausência ainda pode ser depressiva e aterrorizadora.
Mas é no cigarro e no cinzeiro mais uma vez que se encontra o que há de mais parecido com a paz. E que sem trocarem palavras ou olhares ou sorrisos que poderiam então continuar a se convencerem sós, parte de um plano miraculoso onde tudo foi e é ilusão, que nem a mesa nem o que está do outro lado dela poderiam existir, tudo é fruto do que se imagina ser.
E se todos os dias teriam que bater seis horas pra terminar com a tarde porque alguém um dia pensou que isso poderia inspirar um novo começo aos que precisam, ou simplesmente porque assim haveria de ser, e não de qualquer outra forma, todos os dias o sol teria ali a sua bicada de podridão arreganhada e a luz que atravessa aquele quadrado de madeira morna e escura e rachada encontraria nada mais do que silêncio e corpos vazios, olhos que mais nada querem olhar e a triste cena de Homem e Mulher morrendo em passado com apenas uma madona quase sem cor a cozer-lhes suas mortalhas, enquanto andam pela mesa apenas cigarro rumo a cinzeiro, e pão rumo ao café.
Já arrastava, o sol, o Homem para dentro de casa, como assim era feito e então, como se costuma dizer, assim é que deveria ser. Aquele ruído que as portas fazem ao serem incomodadas, se fosse um outro dia qualquer, seria o único daquele fim de tarde e começo de noite, porque palavras já sabemos que ninguém mais usava, desnecessário seria dizer então que os sons do amor também a tempos não vibravam os ares ou os móveis daquela casa.
A janela fechada provocou a primeira manifestação que poderíamos chamar ser a prova de humanidade do Homem, uma frase inteiramente interjetiva e então, digamos, dotada de ao menos um pouco de sentimentalidade: “Mas que merda...” Ao que parecia a mulher o havia deixado, e dentro da caixa de cigarro, que muito espertamente ela sabia ser onde ele iria procurar sua paz silenciosa, um bilhete assim dizia: “Sua fumaça me incomoda”. Ao leitor cabe compreender o que fumaça significa.
Acontece que todos os dias, mesmo a partir dali, iriam sim bater as suas seis horas da tarde, e que isso muito provavelmente não quer dizer nada, mas aquela casa que a essa hora costumava ter a luz agradável do sol se pondo agora tinha as janelas fechadas, e isso podia ser ruim para o Homem e para a Mulher, mas era sim bom para a madona, de quem só sobravam as linhas, feitas de uma matéria mais resistente ao sol. E era bom também à luz do sol, que agora passava o dia inteiro sem ter que tocar a tal da podridão, poupada pela persiana grossa que vestia o vidro que já fora muito bem limpo.
terça-feira, 5 de fevereiro de 2008
Mulheres
Sorria um sorriso sussurrado, como quem peca sem ser notado. Duas linhas finas como nuvem de inverno se formavam em seu lado direito do rosto. Com os olhos apertados ela parecia ter descoberto o meu segredo mais íntimo.
Uma sexualidade hipnotizante exalava de sua pele. A sua presença e o seu cheiro confundiam minha cabeça, e a certeza que antes tinha e era viva e colorida, quanto ao perigo que aquela mulher representava, começava a perder suas cores para uma vontade puramente animal, um desejo visceral.
Levei-a para o quarto no hotel pulguento em que tinha me hospedado. Enquanto acendia meu cachimbo ela separava duas carreiras em cima do espelho sujo que havia na parede do quarto.
- Cheira?
Sem falar nada, balancei positivamente a cabeça escondida na cortina de fumaça. Cheirava sim. Tinha tempo que deixara de acreditar na vida, de acreditar em mim, e parecia-me bem sensato aproveitar da carne os prazeres que a carne pode dar. O resto que se foda. Ela enrolou uma nota de cinco reais para fazer o canudo. Cheirou. Colocou o espelho no meu colo, me deu o canudo, passou a mão na minha cabeça e me olhou com aqueles olhos de Capitu decididamente vadia. Sentia dentro de mim que em pouco tempo controle seria uma das coisas que eu não teria, assim como bom senso, talvez. Cheirei.
Quando levantei o rosto, ela estava deitada de costas. Sua camiseta deixava nu o seu dorso, e assim podia-se ver a tatuagem que começava na nuca e continuava por dentro do shorts xadrez que usava. Afogado na fumaça do tabaco e nas tantas memórias que aquela mulher me trazia, permanecia imóvel, como um voyeur, como um babaca.
- Então, decidiu assim, do nada, me procurar?
- Eu estou na sua cola desde que você fugiu com todo o meu dinheiro. Do nada foi que eu te encontrei nessa cidadezinha lazarenta.
Arrependi-me de ter respondido. Não estava lá para conversar. Não foi pra isso que rasguei a europa no meio procurando essa vagabunda. Essa vagabunda gostosa por bosta. Coloquei a mão na cintura e senti o revolver. Aquele metal gelado me ajudava a lembrar o porque estava ali. Foco, concentração.
Ela se virou, lentamente. Bem pouco da luz da lua conseguia ultrapassar a cortina mofada. Afastou um pouco as pernas, de um jeito que lhe dava um ar de moça doce e inocente mas atacada por um espírito perveso e sexual. Por entre suas pernas eu via seu rosto, o sorriso, os olhos. Qualquer homem saberia o que ela estava planejando. Nenhum homem seria capaz de resistir.
- Sente saudades?
Antes que ela terminasse a frase, eu já estava em cima dela, como um felino em sua presa. Com muito da minha força eu a apertava contra meu peito, e com uma mão entrelaçada nos cabelos da parte de trás de sua cabeça, sentia-me dono de seus movimentos, de seu corpo, talvez de sua mente. O homem tem sempre essa triste impressão de ser o dominador, tanto na cama, quanto na sociedade. A ilusão do poder da força...
Nos possuímos durante tanto tempo quanto nossos corpos agüentaram. Devo ter gozado umas 4 ou 5 vezes, ela eu nunca saberei. Exausto, eu nem lembrava mais dos meus propósitos, e o cano gelado que trazia na cinta agora estava jogado no chão, incapaz de me fazer lembrar também. Adormeci.
Um estampido forte me arrancou da cama, do sono. Com os olhos embaçados ainda, olhei em volta, procurando o perigo. Mas nada se movia. Um pequeno gemido me guiou os olhos, e foi no chão que achei a origem do barulho. Aquela sem vergonha havia dado um tiro no peito, e agora manchava de sangue o quarto inteiro. Gemia baixinho, seus olhos se reviravam, sem nenhuma conotação sexual agora. Ela tinha errado o coração.
Com a mão, ela me chamou.
- Já gastei toda aquela porra de dinheiro.
Respirava fazendo barulho, bem fundo.
- Você ia me matar, e ia acabar com essa merda de vida sua.
A vida dela ia se esvaindo com o sangue que sujava o carpete e minhas calças. Quando finalmente sua cabeça pendeu em meus braços e senti que ela não respirava mais, coloquei minha roupa, vesti meu paletó e desci pelas escadas. Avisei o recepcionista com cara de árabe do hotel do ocorrido e peguei um taxi para o aeroporto.
Devia ter pego aquele shorts xadrez como lembrança. Provavelmente havia sido comprado com o meu dinheiro de qualquer jeito.
Uma sexualidade hipnotizante exalava de sua pele. A sua presença e o seu cheiro confundiam minha cabeça, e a certeza que antes tinha e era viva e colorida, quanto ao perigo que aquela mulher representava, começava a perder suas cores para uma vontade puramente animal, um desejo visceral.
Levei-a para o quarto no hotel pulguento em que tinha me hospedado. Enquanto acendia meu cachimbo ela separava duas carreiras em cima do espelho sujo que havia na parede do quarto.
- Cheira?
Sem falar nada, balancei positivamente a cabeça escondida na cortina de fumaça. Cheirava sim. Tinha tempo que deixara de acreditar na vida, de acreditar em mim, e parecia-me bem sensato aproveitar da carne os prazeres que a carne pode dar. O resto que se foda. Ela enrolou uma nota de cinco reais para fazer o canudo. Cheirou. Colocou o espelho no meu colo, me deu o canudo, passou a mão na minha cabeça e me olhou com aqueles olhos de Capitu decididamente vadia. Sentia dentro de mim que em pouco tempo controle seria uma das coisas que eu não teria, assim como bom senso, talvez. Cheirei.
Quando levantei o rosto, ela estava deitada de costas. Sua camiseta deixava nu o seu dorso, e assim podia-se ver a tatuagem que começava na nuca e continuava por dentro do shorts xadrez que usava. Afogado na fumaça do tabaco e nas tantas memórias que aquela mulher me trazia, permanecia imóvel, como um voyeur, como um babaca.
- Então, decidiu assim, do nada, me procurar?
- Eu estou na sua cola desde que você fugiu com todo o meu dinheiro. Do nada foi que eu te encontrei nessa cidadezinha lazarenta.
Arrependi-me de ter respondido. Não estava lá para conversar. Não foi pra isso que rasguei a europa no meio procurando essa vagabunda. Essa vagabunda gostosa por bosta. Coloquei a mão na cintura e senti o revolver. Aquele metal gelado me ajudava a lembrar o porque estava ali. Foco, concentração.
Ela se virou, lentamente. Bem pouco da luz da lua conseguia ultrapassar a cortina mofada. Afastou um pouco as pernas, de um jeito que lhe dava um ar de moça doce e inocente mas atacada por um espírito perveso e sexual. Por entre suas pernas eu via seu rosto, o sorriso, os olhos. Qualquer homem saberia o que ela estava planejando. Nenhum homem seria capaz de resistir.
- Sente saudades?
Antes que ela terminasse a frase, eu já estava em cima dela, como um felino em sua presa. Com muito da minha força eu a apertava contra meu peito, e com uma mão entrelaçada nos cabelos da parte de trás de sua cabeça, sentia-me dono de seus movimentos, de seu corpo, talvez de sua mente. O homem tem sempre essa triste impressão de ser o dominador, tanto na cama, quanto na sociedade. A ilusão do poder da força...
Nos possuímos durante tanto tempo quanto nossos corpos agüentaram. Devo ter gozado umas 4 ou 5 vezes, ela eu nunca saberei. Exausto, eu nem lembrava mais dos meus propósitos, e o cano gelado que trazia na cinta agora estava jogado no chão, incapaz de me fazer lembrar também. Adormeci.
Um estampido forte me arrancou da cama, do sono. Com os olhos embaçados ainda, olhei em volta, procurando o perigo. Mas nada se movia. Um pequeno gemido me guiou os olhos, e foi no chão que achei a origem do barulho. Aquela sem vergonha havia dado um tiro no peito, e agora manchava de sangue o quarto inteiro. Gemia baixinho, seus olhos se reviravam, sem nenhuma conotação sexual agora. Ela tinha errado o coração.
Com a mão, ela me chamou.
- Já gastei toda aquela porra de dinheiro.
Respirava fazendo barulho, bem fundo.
- Você ia me matar, e ia acabar com essa merda de vida sua.
A vida dela ia se esvaindo com o sangue que sujava o carpete e minhas calças. Quando finalmente sua cabeça pendeu em meus braços e senti que ela não respirava mais, coloquei minha roupa, vesti meu paletó e desci pelas escadas. Avisei o recepcionista com cara de árabe do hotel do ocorrido e peguei um taxi para o aeroporto.
Devia ter pego aquele shorts xadrez como lembrança. Provavelmente havia sido comprado com o meu dinheiro de qualquer jeito.
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